Ana Maria Fernandes é vegetariana estrita há três anos. Desde 1999 é proprietária e diretora da Escola Ponto Alfa em São José do Rio Preto, SP, que atualmente conta com um bistrô vegetariano que atende os alunos, pais e funcionários. A ideia do bistrô nasceu com o desejo de conscientizar os alunos e pais a se alimentarem corretamente e a cuidarem da saúde. Nesta entrevista concedida com exclusividade ao Portal Tudo Para Vegetarianos, Ana Maria conta o que a motivou a implantar essa ideia em sua escola, a reação dos alunos e os passos seguintes que surgiram a partir da realização desse projeto. Para conferir algumas fotos e informações, visite o site da escola: http://www.pontoalfa.com.br/
Portal TPV: 1. O que a motivou a optar pela dieta vegetariana? Como foi a mudança?
Ana Maria: A primeira coisa que me motivou foi quando descobri a questão das doenças nos animais. Aprendi que a dieta onívora não é apropriada para nós, isto é, não foi o que Deus nos deixou como nutrição e, se escolhi glorificá-Lo, tenho que o fazer em todos os âmbitos.
Além disso, a indústria dos alimentos sacrifica os animais sem oferecer-lhes condições boas de vida, pois precisam lucrar. O que fazem com os animais não é humano, daí a opção em ser vegana. A mudança não foi fácil, é claro, até porque vivo no meio de criadores de gado, mas com bastante persistência a vitória foi alcançada. O mais difícil para mim foi largar o queijo.
Ana Maria: A ideia surgiu em primeiro lugar porque essa é a dieta de Deus e em segundo, porque ao seguir uma dieta errada, os alunos sofrem as consequências. Na escola, a consequência é nítida: os alunos não conseguem se concentrar, não conseguem compreender um texto e isto ocorre mesmo depois de aplicar várias técnicas de compreensão. Na escola, temos alunos adeptos da Nova Era que são vegetarianos e a diferença é gritante em comparação com os alunos que não seguem uma dieta vegetariana.As crianças que são vegetarianas conseguem raciocinar de forma rápida. Tudo é muito claro para eles. Em contrapartida, tudo é muito difícil para os demais que não seguem essa dieta.
Portal TPV: 3. Houve apoio por parte dos professores e dos pais?
Ana Maria: No início, as pessoas ficaram céticas, mas depois que o resultado aflorou de forma positiva, isto é, as crianças passaram a comer com prazer e a pedir que a alimentação em casa fosse mudada, essas mesmas pessoas começaram a respeitar e a acreditar mais na ideia. Pais de alunos começaram a frequentar o bistrô com o objetivo de descobrir o segredo dos pratos oferecidos, pois as crianças pediam saladas em casa do jeito que comiam na escola.Agora, o segundo passo é fazer um trabalho de conscientização dos pais e responsáveis para que deem continuidade em casa. Nesse ano, estamos oferecendo a Cozinha Experimetal, aulas em que os alunos aprendem a fazer pratos vegetarianos gostosos. Estamos com um mês de trabalho e está indo muito bem. No dia das mães, as crianças oferecerão um chá com pratos feitos por eles. Enviarei fotos desse dia.
Portal TPV: 4. Como funciona o bistrô?
Ana Maria: O bistrô é aberto a alunos e seus familiares, professores, funcionários e convidados das famílias. Ele não é aberto ao público desconhecido. Para almoçar no bistrô, é preciso receber o convite de alguém de dentro da escola. Há três opções de preços – alunos mensalistas, alunos que almoçam esporadicamente e adultos. O bistrô funciona somente no período escolar, de acordo com o ano letivo. Em média, há 40 pessoas que almoçam diariamente conosco.
Portal TPV: 5. Quais são os tipos de prato servidos?
Ana Maria: Temos uma pessoa responsável em fazer os pratos. Os pratos são variados para atender os diversos tipos de nutrientes necessários ao organismo humano. Trabalhamos com cores variadas. Primeiro é servido a salada, depois o prato quente e a sobremesa. A salada é acompanhada de sal grosso temperado com ervas, quinua real, gergelim em pó e em grãos e semente de girassol.
O prato quente sempre é acompanhado de arroz integral, feijão, uma torta, um vegetal e farofa. Fizemos nhoque de mandioca e foi um sucesso. Quando oferecemos massa, o arroz e feijão não são servidos. Não oferecemos um cardápio para os alunos escolherem. Eles comem o que tem no dia. Quando uma criança diz que não gosta e não quer o alimento oferecido, é realizado um trabalho de conscientização, isto é, explicamos no mesmo momento a importância daquele alimento para o corpo e a mente. Sempre funciona. Há crianças que chegam a repetir o prato que a princípio recusou.
Portal TPV: 6. A cantina da escola sempre ofereceu salgados vegetarianos? Se não, como foi a mudança?
Ana Maria: Não, a cantina tinha um lucro grande, pois vendia todo tipo de “lixo”. A mudança foi de uma vez. Tiramos todos os “lixos” e substituímos por castanhas e frutas secas. Claro que não preciso colocar aqui o rendimento financeiro, mas o que importa é oferecer o que é saudável. Há ainda muito a fazer. É preciso trabalhar muito a conscientização, pois isso funciona bem. Ir contra a mídia não é fácil, até porque em casa os pais compram os “lixos”.
Hoje oferecemos sucos naturais, salgados vegetarianos, como quibe, coxinha de mandioca com recheio de carne vegetal e palmito, risoles de carne vegetal e palmito, esfiha de carne vegetal e palmito, hambúrguer (pão integral, hambúrguer de soja, alface, tomate, azeite, sal temperado e ervas finas) e sorvete de frutas (a Cozinha Experimental fará sorvetes de frutas com leite de soja futuramente). O nosso objetivo é fazer os pratos nas aulas e colocar à venda na cantina. Tudo feito pelos alunos.
Portal TPV: 7. O que os alunos acham dos salgados oferecidos pela cantina hoje? Qual foi a reação diante da mudança de cardápio?
Ana Maria: Na época do "lixinho", já oferecíamos o quibe vegetariano sem eles saberem que não era de carne. Depois da mudança, ficaram resistentes, daí dissemos que era o mesmo esquema do quibe. Experimentaram e hoje tudo é um sucesso.
Portal TPV: 8. Houve um decrescimento no número de alunos afastados por doença após a abertura do bistrô e as mudanças no cardápio da cantina?
Ana Maria: Pergunta difícil de ser respondida, pois no ano passado, tivemos um ano tranquilo com relação às viroses e gripes. Neste ano, o que percebemos é que as crianças que em casa comem ainda muitos produtos derivados do leite vivem com infecção (há crianças que trazem todos os dias presunto e queijo enrolados, iogurte e manteiga de lanche). Esse quadro é nítido.
Percebemos que se a família não dá continuidade à alimentação saudável, de nada vale somente uma refeição boa por dia. Houve um ano na escola em que oferecemos almoço vegetariano. Naquele ano, um aluno que vivia doente passou o ano todo sem faltar. Pode ter sido coincidência, mas no ano posterior, período em que a família mandava o alimento, o garoto faltou muito, principalmente por virose.
Portal TPV: 9. Houve alguma mudança de comportamento e/ou aproveitamento escolar das crianças após a mudança na alimentação?
Ana Maria: Creio que precisamos mais desse ano para responder com exatidão à essa pergunta. Trabalharemos a questão com os responsáveis e quando a alimentação em casa for mudada, aí sim poderemos fazer um trabalho mais preciso. Uma coisa é certa – as crianças apreciam demais a alimentação da escola. O mérito vai para a pessoa responsável que dá bastante sabor aos alimentos. Há um equilíbrio de sabor e saúde na alimentação, provando que não necessitamos dos "pozinhos mágicos", como costumo apresentar para os alunos, acrescentados à alimentação industrializada.
Portal TPV: 10. Você já pensou em propor para a prefeitura fazer com que a rede de escolas municipais tenha a mesma alimentação?
Ana Maria: Ainda não, mas é uma ideia. O governo já proibiu a venda de salgadinhos e refrigerantes nas cantinas escolares. Só não sabemos se há fiscalização o suficiente e se as escolas respeitam a lei. Vamos amadurecer a ideia, pensar em um projeto e apresentar à Prefeitura.
Portal TPV: 11. Em sua opinião, por que a dieta vegetariana é mais apropriada para o ser humano, especialmente para as crianças?
Ana Maria: Tenho alguns pontos sobre esse assunto:
• Vivemos em um mundo capitalista. Dinheiro é o lema. Digo aos alunos que as indústrias não estão nem aí com a saúde da população, porque o que importa é o dinheiro. Daí a advertência contra a maioria dos produtos industrializados. Não podemos confiar em pessoas cujo lucro encontra-se em primeiro plano.
• A saúde está em jogo. Já foi comprovado que a alimentação vegetariana equilibrada é a mais adequada aos seres humanos. É preciso deixar bem claro aqui que se uma pessoa é vegetariana, compra sua alimentação em mercados comuns e não os lava adequadamente, sofrerá as mesmas consequências de uma alimentação não vegetariana, pois o agrotóxico ingerido faz mais mal do que a carne. Muitos vegetarianos estão contraindo câncer devido à imprudência nessa questão. Precisamos lavar os alimentos com esponja e sabão.
• Outro dia fui a um restaurante japonês e pedi somente sashimi vegetariano e eles me ofereceram kani. Disse que kani era carne de siri. Eles me apresentaram a embalagem e mostraram que era amido puro aromatizado artificialmente. Veja, como podemos confiar? É primordial lermos as instruções dos rótulos. Estamos fazendo um levantamento de todas as palavras científicas e traduzindo-as a fim de montarmos um dicionário de compras saudáveis. Todo cuidado ainda é muito pouco.
As crianças são o grande alvo já faz um tempo. Elas estão em fase de crescimento, de formação corporal e mental. Se a alimentação não for saudável, outra geração perdida se constituirá. Essa é a minha luta: fazer com que pelo menos algumas crianças que passarem por aqui possam ser salvas dessa rede. Todas estão dentro dela. Para salvá-las, é preciso cortá-la e puxar para fora todos que queiram sair e orientar no sentido de não caírem nas próximas redes. Um trabalho difícil, mas possível de ser realizado com sucesso.
Por Karina C. Deana

Nenhum comentário:
Postar um comentário